Críticas

Attack on Dance.BR | Ney Hassegawa

A residência artística de Ney Hassegawa no Centro Cultural São Paulo colocou em cena 10 bailarinos brasileiros em meio a um sem-número de questionamentos sobre suas vidas, suas histórias, suas experiência, e aquilo que pensam da sociedade, da política, da arte. Um questionário personificado coloca em cheque as possibilidades da dança, e nos faz pensar se ela seria capaz de mudar o mundo, a partir desse projeto ímpar, criticado no Da Quarta Parede.

Fruto da residência de Ney Hassegawa correalizada dentro do CCSP Semanas de Dança 2016, pelo Centro Cultural São Paulo e pela Fundação Japão – São Paulo, a montagem brasileira de Attack on Dance do coreógrafo japonês se questiona sobre a possibilidade (ou impossibilidade) de a dança mudar o mundo. O projeto conta com 10 bailarinos, selecionados para essa montagem brasileira para os três meses de trabalho junto de Hassegawa, que lhes interroga acerca de diversas questões, além de propor a produção de um solo de dança de cada um deles.

Nessa obra, mais importante que os solos, são de fato as interrogações e as reflexões que elas provocam tanto nos bailarinos quanto no público. Montada sobre uma cena simples, que inclui um telão de projeções e objetos pessoais de cada um dos bailarinos, somos levados por uma série de processos que nos apresentam quem são esses indivíduos, e como eles vêem a dança e a sociedade em geral.

Água, sapatilha, echarpe, livro, caderno — a coleção inesperada e irregular de objetos nos conduz por um processo guiado por um texto inicial de apresentação dos bailarinos e de seus objetos pessoais, e passamos então a um reconto de “Estatísticas da Dança”, em que os bailarinos nos apresentam, através de respostas simples, mais informações pessoais, como as aulas que fazem, as academias que frequentaram, quantos professores tiveram, o maior investimento que já fizeram em dança, e o valor que consideram caro para um ingresso de dança. Essas respostas são proferidas, mas também visualmente encenadas, com o uso do espaço pelos baialrinos, que se agrupam ou se postam frente às projeções, quase sempre numéricas, de suas respostas. Através dessas estruturas, veremos as individualidades, mas também as associações, com perguntas que forçam os bailarinos a se agruparem num “sim” ou “não”, deixando pouco caminho para a sutileza.

Aqui, a seleção dos bailarinos para o projeto se mostra fundamental: como os dados são apresentados com uma certa crueza, frequentemente brutos e despidos de personalidade, eles parecem nos levar a crer que trata-se de uma pesquisa quantitativa. E se a mesma fosse empregada com um grupo de bailarinos de uma só companhia, ou de semelhantes trajetórias de formação ou percursos artísticos, talvez não houvesse a variedade que abre o espaço da cena para a interrogação da platéia, que pode responder a si mesma aquelas mesmas perguntas, e encontrar respostas distintas ou semelhantes àquelas apresentadas no palco.

Um questionamento-chave se coloca aos bailarinos: seria esse um espetáculo de dança? E, a partir de certos comandos específicos de provocação de movimento, eles são requisitados a dançar com seus objetos pessoais. Entre as discussões que se colocam sobre a cultura japonesa e a cultura da dança, os bailarinos também passarão a caracterizar aquilo que entendem de diversos tipos de dança, demonstrando-os para o público.

Outros questionamentos se seguirão — temas políticos, temas sociais, todo um desenvolvimento da questão do esporte e de seu reconhecimento, em paralelo com as questões artísticas — para gerar uma série de resultados dançados em propostas de movimentos bastante semelhantes. De um certo modo, parecemos nos encaminhar, a partir dos muitos dissensos, para alguns lugares-comuns. Mas os resultados corporais não deixam se afastar o foco da pessoalidade e da personalidade de cada bailarino — elementos esses que regem o espetáculo e a sua progressão.

O maior dos questionamentos e das provocações apresentados ocorre quando o coreógrafo questiona se os bailarinos acreditam que a dança possa mudar o mundo, e, para aqueles que respondem positivamente, ele faz o pedido: mostre a dança que pode mudar o mundo. Por um segundo, talvez aqueles do público que vêm de uma tradição em dança precisem prender a respiração. A pergunta é clara, fundamental, e ao mesmo tempo, talvez poucas vezes reiterada. Pode a dança mudar o mundo? E, se acreditamos que sim, qual é a dança capaz disso?

A resposta se encontra nos movimentos dos bailarinos, mas de uma forma muito inesperada. A dança que alguns deles acreditam que possa mudar o mundo é simplesmente a dança que eles executariam para qualquer outro comando, como por exemplo “me mostre a sua dança”. E não se trata de arrogância. A esse ponto do espetáculo, já nos sentimos íntimos desse grupo de bailarinos. Cúmplices de suas histórias, de seus esforços, daquilo em que acreditam. O tom de quase inocência — tanto da pergunta como das respostas —  rompe com a separação cética da estrutura perguntas-e-respostas do espetáculo. De certa forma, rompe também com algumas estruturas que carregamos enquanto público.

Acreditamos que a dança possa mudar o mundo? E, caso negativo, por que continuamos tão envolvidos e tão dedicados a essa forma artística? O que justifica, na insignificância de nossos tempos pessoais, o investimento, o trabalho, o esforço empregados na dança? Aqui, as questões daqueles que fazem a dança e que a ela dedicam suas vidas, se replicam para aqueles que a acompanham. Eu poderia estar em casa, era um domingo à noite e eu acabara de voltar de uma viagem de trabalho, mas estava em meio a uma platéia lotada, no CCSP, vendo as respostas daqueles bailarinos às perguntas desse artista provocador.

Estrutura antiga da arte, continuamos nos prendendo às obras e seus realizadores da mesma forma que nos prendemos aos avanços da ciência, às discussões políticas, aos encaminhamentos legislativos, aos progressos tecnológicos. Em tantas vezes que parecemos ouvir das obras de arte perguntas sobre nossas próprias vidas, sobre o que fazemos e o que pensamos, em Attack on Dance, Hassegawa elimina o olhar enviesado da estética, da dança, e ataca — os bailarinos, o público e a própria dança — com perguntas diretas e até bruscas.

Do corriqueiro ao filosófico, se estendem as possibilidades de questionamentos que surgem dessa grande provocação. Abundantes, se desdobram em nossas cabeças e na cena. Quando, só ao final da obra, os bailarinos finalmente dançam seus solos, em um trecho tão breve e passageiro quanto as muitas perguntas deixadas para trás, somos indiretamente convidados a refletir sobre os temas propostos. Entre eles, o mais premente: pode a dança mudar o mundo? Depois dessa pergunta, parece difícil não olhar para esses bailarinos dançando — e para os tantos outros que vemos — e nos questionarmos, no silêncio e no escuro da sala de espetáculo, se aquilo a que assistimos, de alguma forma, é capaz de mudar o mundo.

Vigorosamente, Hassegawa ataca os bailarinos, e, com eles, o público, para promover um ataque à dança: um questionamento daquilo que dela esperamos, de suas potências e de suas capacidades, de seu reconhecimento em nossa sociedade frente a outras formas de movimento, outras formas artísticas, outras formas de produção de conhecimento. Se ataques são situações perigosas, que envolvem o risco da destruição, esse Attack on Dance, em sua versão .BR, serve para nos mostrar, acima das outras coisas, que a dança é mais forte do que esperávamos, que ela resiste a diversos ataques teóricos, políticos, econômicos, epistemológicos, e assim por diante. Ao fim do espetáculo, permanece o alívio e a felicidade daqueles que partem para enfrentar um ataque e, tal qual a dança, resistem.

 

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