Críticas

Contact | Compagnie DCA Philippe Decouflé

O novo espetáculo de Philippe Decouflé para a companhia DCA, encerra sua longa temporada de estreia no Théâtre National de Chaillot essa semana. Contact, concebida como uma comédia musical onírica, é mais um produto do pensamento que o coreógrafo e diretor propõe a partir de seus sonhos – processo recorrente em seu trabalho criativo.

Divulgada como uma obra “pluridisciplinar de arte total”, anunciada na programação do Chaillot como Dança e Música, Contact intriga sobretudo pela mistura das formas artísticas. A primeira formação de Decouflé, em circo e mímica, é evidente no resultado apresentado para o público. Com números aéreos, câmeras registrando em tempo real as cenas e criando projeções caleidoscópicas, a preocupação do diretor é sobretudo em agradar os olhos, mais do que em se prender a definições limítrofes entre formas artísticas ou a separar o que pertence a um estilo e o que pertence a outro.

A mistura em cena é favorecida pela processo de criação colaborativo do espetáculo, que tem participação ativa dos intérpretes, e uma composição original de música (também executada ao vivo) por Nosfell e Pierre Le Bourgeois, que encaminham a obra tanto quanto as propostas do diretor. Sobre essa função, o próprio Decouflé observa que com o tempo, tem trabalhado cada vez menos como coreógrafo e cada vez mais como diretor artístico – se dedicando sobretudo à coordenação da realização do todo do espetáculo.

Em Contact, parece que a mistura de fontes, já característica do trabalho da DCA, atinge novos patamares. Em meio às referências a diversos estilos musicais e de dança, que passam de Bollywood pela Broadway ao Voguing, as cenas de dança, propriamente dita, não chegam a cinco, em uma hora e quarenta de espetáculo. Mas isso não incomoda o público, muito mais interessado na criação artística de Decouflé, do que em categorizar a natureza espetacular da obra. Diversas cenas faladas propõem, no palco, uma biografia acidental de Fausto – a partir do trabalho do grupo com uma tradução francesa do original de Goethe. Acidental, porque não tinha sido originalmente concebida como parte da obra, mas acabou adentrando na proposta inicial de contar uma história de uma trupe montando um musical. Nem uma, nem outra histórias ficam claras em cena. A preocupação maior aqui não é narrativa, é visual e cumulativa, juntando os diversos materiais do espetáculo sem uma gradação no valor de cada um deles.

Essa proposta de equiparar as múltiplas referências, assim como os múltiplos elementos que compõe a obra, são, para Decouflé, associações diretas com suas inspirações e  sua formação em dança, pontuando notadamente Merce Cunningham e Alwin Nikolais, na elaboração de estratégias de planificação do comando, e criação com atenção igual à dança, à música, à direção de cenas, aos figurinos, ao cenário, aos elementos visuais.

A grande busca da DCA, nesse espetáculo, é o contato com o seu público, e a comunicação. Tornando a obra acessível para ainda mais platéias possíveis, algumas das apresentações da temporada tiveram acompanhamento em LSF (Linguagem Francesa de Sinais), para a grande quantidade de texto falado no espetáculo.  E toda a adaptação e o acompanhamento foram feitos dentro da própria obra: os tradutores foram incorporados ao elenco, atuando junto das cenas e criando um elemento a mais, interessante também até para aqueles que não entendem a Linguagem de Sinais.

Essa questão da tradução entre sistemas comunicativos tem interessado ao criador, que tenta trabalhar com LSF há algum tempo. Marcadamente, ele comenta sua decepção quando começou a estudar Linguagem de Sinais e descobriu que ela não era universal, sendo altamente variável de uma cultura para outra. Ai, mais uma marca do desejo da equiparação, da possibilidade de colocar todos os elementos (e todas as culturas) em pé de igualdade, que cercam o trabalho de Decouflé.

Ainda quanto a essa proposta de equiparidade, um único elemento desponta e incomoda em Contact. A realização da música ao vivo, dividida visualmente nos dois cantos da cena, também tem uma divisão clara quanto a quem ocupa cada um dos cantos. Se do lado esquerdo Pierre Le Bourgeois se mistura constantemente aos demais performers e elementos da cena, do lado direito, Nosfell usa bastante da sua aura de estrela do rock. Mais até do que seria esperado no contexto da obra: apesar de ele raramente estar em cena como um personagem (que não seja o personagem do próprio cantor e compositor), sua forte presença marca constantemente as cenas como se elas fossem uma biografia dele próprio, e como se falassem, unicamente, dele, dando um direcionamento que não existe nos demais elementos do espetáculo, e desequilibrando o palco e a composição da obra. O mesmo não pode ser dito da composição da trilha sonora original do espetáculo. O diversificado trabalho de voz do cantor, e a enorme quantidade de instrumentos que ele e seu companheiro de criação usam para a obra, criam um espectro amplo e variado de ambientações, que se instalam e se encaixam com a variedade das cenas de Decouflé.

É difícil avaliar Contact dentro de cada uma das modalidades empregadas na construção da obra. Sem dúvida, a ideia de construir um espetáculo visual é alcançada, e em grande tom. Porém, a tentativa de separar os elementos e entendê-los enquanto pares de outros exemplos das mesmas formas (ou seja: comparar a dança de Contact com outros exemplos de dança contemporânea; comparar as narrativas de Contact com outras narrativas da cena contemporânea; comparar o circo de Contact com outros exemplos de circo contemporâneo) resulta unicamente em uma dissecação que não valoriza nem acrescenta à obra.

Essa importância do conjunto dos elementos é fundamental na realização da proposta de Decouflé. Seu espetáculo não tem Dança especialmente relevante para a Dança que se faz hoje (na França ou em qualquer outro lugar). Mas a associação das muitas partes envolvidas cria uma obra que não aconteceria em outro momento, com outro criador. A assinatura do diretor fica clara nesse viés, ainda que a sua assinatura enquanto coreógrafo seja pouco marcante. É o contato e a associação das partes que resulta num todo único, num espetáculo que se realiza precisamente porque seu todo é maior do que a simples soma de seus muitos elementos. E nesse viés, falar do sucesso coreográfico, do sucesso da dança de Contact é pouco produtivo. Vale muito mais mencionar o sucesso de comunicação, o sucesso do contato de Contact com seu público.

 

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