Espécie Rara
Nadando contra a corrente, o Grupo Corpo aposta pesado na continuidade de sua espécie rara em “Piracema”

Quando abre a cortina de “Piracema”, somos submersos no mundo dourado do cenário feito de 82mil tampas de latas de sardinha, sobrepostas e refletindo como escamas de uma espécie rara. Junta-se a isso o título do novo trabalho do Grupo Corpo e os primeiros sons da trilha sonora, que já nos colocam no meio da mata, em pleno esforço de nadar contra a corrente.
A piracema é um fenômeno natural essencial para algumas espécies de peixes. Depois de um período de acúmulo de energias, um conjunto de alterações climáticas cria condições para que os peixes, antes dispersos pelos rios, se agrupem, e façam uma jornada rio acima. Maduros e fortalecidos eles chegam nas cabeceiras, onde encontram as condições ideais para a desova e a proteção dos ovos contra os predadores, garantindo assim a continuidade da espécie.
É impactante a escolha dessa mística para a obra que estreia no aniversário de 50 anos do Grupo Corpo, e ela se reveste de um tanto de apostas e propostas, de uma companhia que se dispõe a uma jornada de esforço para a sua continuidade.

“Piracema” tem trilha composta por Clarice Assad. A compositora brasileira é a primeira mulher a assinar sozinha uma trilha para o Corpo. Em três movimentos, a trilha cria ambientações bastante distintas para a obra, uma tribal, uma clássica/romântica, e uma tecnológica/futurista. Surgem ai três mundos, um natural/orgânico, um humano/psicológico e um digital/máquina. São três etapas de uma correnteza a atravessar, e essa travessia é a grande aposta de “Piracema”.
Aposta porque partiu de uma ideia inusitada, de se ter dois coreógrafos, Rodrigo Pederneiras, figura chave da história do Corpo e da dança brasileira, e Cassi Abranches, que foi bailarina do corpo antes de se destacar nacional e internacionalmente como coreógrafa, e agora está de volta à companhia, nessa nova posição. Para além de serem dois coreógrafos, o diretor Paulo Pederneiras propôs que eles coreografassem, separadamente, cada um com metade do elenco, a trilha sonora completa.

Como peixes da mesma espécie, vindo de espaços diferentes, e se encontrando em meio à correnteza pra subir o rio, cada coreógrafo trabalhou com sua equipe sem ver o trabalho do outro, resultando em duas obras inteiras, dois pontos de vista distintos sobre o mesmo ponto de partida, que depois foram trabalhados pra compor a “Piracema” a que assistimos.
No resultado, vemos sobreposições, encaixes, e arranjos coreográficos, que provocam os mais entendidos a tentar entender qual coreógrafo fez o quê. Mas a resposta real é muito mais interessante do que identificar um ou outro, e coloca a força desse conjunto, do sucesso do trabalho em equipe, que é, há 50 anos, a marca do Corpo.
A trilha sonora é complexa, o processo coreográfico é absolutamente arriscado, e o resultado final é uma surpresa que só perto da estreia de fato pôde ser avaliada como um todo. A coragem do diretor para propor uma forma nova de trabalho fala um tanto sobre o pensamento do grupo, nada interessado em descansar em seus louros, e, muito mais do que olhando para os 50 anos que passaram, olham para os próximos.

É uma lógica de continuidade que nunca foi vista em outras companhias. O Corpo teve gerações de bailarinos, e gerações de colaboradores, e mantém a sua proposta de trabalho contínuo, familiar, coletivo, e elevado. Em “Piracema”, entram nesse processo Susana Bastos e Marcelo Alvarenga, responsáveis pelo figurino, assumindo o lugar de Freusa Zechmeister, que faleceu em dezembro passado.
Essa não é a primeira vez que outros figurinistas trabalham com o Corpo. Antes, Ronaldo Fraga participou de “Santagustin” (2002), e Janaina Castro fez o figurino de “Estancia” (2023). Em “Piracema”, a dupla de figurinistas mantém uma certa deferência ao estilo de Zechmeister e sua forma de mostrar e valorizar o corpo dos bailarinos, mas traz também interessantes propostas de modificação de formas, e de contraste de cores que, frente ao cenário contínuo e dourado da obra, trazem uma leitura visual dos três movimentos da trilha de Assad: um em tons de terra, um em tons de azul, e um cinza e prata.
Modifica o cenário a delicada iluminação que Paulo assina com Gabriel Pederneiras, Diretor Técnico do Corpo, já há alguns anos envolvido com a criação da iluminação das obras. A dupla usa o cenário para refletir as luzes e matizar a cena, criando uma variedade de percepções que, mesmo dentro do espaço contínuo, transporta para muitos outros pedaços do caminho dessa migração contra-corrente.
O grande destaque em meio à correnteza, como não poderia deixar de ser, é a dança de “Piracema”. O resultado da mistura dos coreógrafos é inesperadamente excelente. Ainda que distintos, é possível ver no trabalho dos dois as linhas de continuidade e referência. Eles são artistas de uma mesma espécie, e se encontram na cabeceira desse rio com propostas distintas mas que se complementam com sucesso.

Preenchida com cenas que encaixam os elencos dos dois, cenas que os sobrepõe, e cenas que os alternam, experimentamos toda a dinâmica do fluxo da piracema, que não é só uma coisa, mas uma quantidade enorme e exaustiva de coisas. Os dois coreógrafos nos entregam excelentes explorações dos conjuntos, mostrando como um indivíduo pode fazer parte do conjunto, como grupos distintos compõem um todo, e como as diferenças podem migrar para uma mesma direção.
“Piracema” vai ser lembrado por alguns de seus carregamentos, que ilustram formas de apoio, de se contar com o outro, de esperar do outro; por suas pernas, lançadas, atrevidas, expansivas, buscando um chão firme em que se apoiar em meio à correnteza; por seus ombros que pulsam e embalam a força da água; e por seus giros, constantes e atrevidos, que deixam a plateia ver os bailarinos como os peixes, mas também como a água, e, ainda, como as pessoas espelhadas nessa metáfora.
Do centro da obra, o movimento azul, único em que há um pouco de calma, ainda que relativa, avança sobre as dinâmicas humanas. Um quarteto poético, sensual e cheio de desejo, mas com o olhar completamente desviado, é seguido de uma sequência preciosa de duos emotivos, de agarrar, de levantar, de carregar, nos transportando mais que em qualquer outro pedaço, para dentro da lógica da obra.

Se a piracema é um desafio de resistência contra a corrente, “Piracema” é a afirmação da importância e do sucesso desse processo. Reflete sobre a história do Corpo e a história da dança brasileira, e o seu momento tão atual, em que os processos que germinaram nos anos 1970 chegam aos seus 50 anos, e passamos a perguntar o que vem depois desses 50.
Colocando múltiplas gerações em trabalho conjunto, o Corpo busca, de forma única e autoral, como tanto de seu trabalho, o seu futuro. Não se trata de substituição, de atualização, mas de pensamento em prazo e escala. O absoluto sucesso de “Piracema” não é retomada, não é renascimento, não é passagem de bastão. É a continuidade de uma espécie rara. Poder ver o vigor da continuidade em uma companhia cinquentenária é o privilégio da nossa geração.
Piracema [2025]
coreografia: Rodrigo Pederneiras e Cassi Abranches
música: Clarice Assad
cenografia: Paulo Pederneiras
figurino: Susana Bastos e Marcelo Alvarenga
iluminação: Paulo Pederneiras e Gabriel Pederneiras
fotos: José Luiz Pederneiras



