Críticas

Da imagem à imagem-corpo à representação

Traduzindo imagens do Brasil em voz e em corpo, Tiago Cadete não ocupa o tempo com rascunhos: em “Alla Prima”, ele vai direto à obra e cria aquilo que se poderia perceber de uma brasilidade, de forma fugaz e impermanente, dentro do Museu do Ipiranga.

A imagem que rapidamente se faz e se reconstrói é o material de trabalho de Tiago Cadete em “Alla Prima”. A obra, que veio para a Bienal Sesc de Dança 2017, agora é reapresentada dentro do Museu do Ipiranga, a partir da ocupação que o Sesc Ipiranga lá realiza, nos preparando para a reforma e reabertura — tão esperadas — do museu.

O procedimento é um questionamento da imagética que forma uma percepção de Brasil e de brasilidade, e dos modos como isso se traduz, ao ser reinterpretado para o corpo. Para isso, o performer faz uma coleta de diversas imagens do nosso imaginário artístico e social e as retrabalha, em si e em outros.

Ouvimos vozes que fazem um registro vocal das imagens, traduzidas em texto/voz, e em corpo: elas nos dizem o que são as figuras visíveis, e Cadete reproduz essa descrição. No dispositivo proposto, alla prima é o procedimento e a explicação: a interpretação da obra é feita alla prima, de uma vez, sem rascunho, partindo da primeira compreensão do que é visto.

Por isso, lida com um princípio formalista e um tanto de esteriotipagem. Não se trata de investigar as origens e razões das imagens, as suas formas, sua apresentação, e, através desse dado concreto, avançar sobre as possibilidades de como o Brasil é visualmente construído na cabeça e na memória das pessoas.

Inserida no Museu do Ipiranga, a obra compete, e perde — mas não haveria de ser diferente — com a grandiosidade do espaço em que se insere. Na grandeza física e representativa desse espaço, o corpo sozinho se diminui. Curiosamente, não é esse um demérito. O que ele faz é alertar para a importância da reflexão que pode ser suscitada: ultrapassar aquilo que a obra nos entrega e partir para raízes maiores dos processos de representação e representabilidade de uma identidade nacional.

Num outro ângulo, a reflexão pode atingir as artes representativas: ainda que esse lugar e sua relevância sejam um belo ponto de partida para o processo, é fácil dele escapar, o que retrata uma forma de resistência das artes da cena, na competição da grandiosidade estática arquitetônica e da obra que vemos ao fundo.Essa obra, o “Independência ou Morte”, é de onde parte o segundo procedimento da performance, que trabalha, não mais pelo retrato vocal das imagens, mas pelo retrato visual delas, que serão projetadas num telão em cena. Porém, aqui, Cadete ganha a oportunidade de começar pelo quadro do “Independência”, e ilustrar um pouco melhor essa transição — extremamente artesanal — da imagem para a imagem-corpo.Novamente, as imagens são mostradas, e um detalhe delas nos é descrito pelo corpo do performer. Não se tratam apenas de imagens antigas, mas chegamos aos dias atuais, à presidente Dilma Roussef, passando por Portinari, pelo “Abaporu”, mas também por Inês Brasil e Caio Castro.O processo da interpretação vai se acelerando nas projeções, o que diminui a possibilidade de exame das imagens originais, mas atenta para a questão fundamental à obra de sua reprodutibilidade: como vemos e entendemos e guardamos aquilo que passa aos olhos numa piscadela

Mais que isso, a situação nos leva a questionar o como se constrói o Brasil e sua percepção aqui e no exterior — importante observar que parte das imagens tratam no passado colonial, e que o exame delas é feito pelo ponto de vista de um performer português. Não há um problema porque não se trata de buscar uma verdade, de dizer “é isso que é o Brasil”, mas sim de investigar como essa ideia pode se construir, num processo em que o exame detalhado às vezes é completamente limado, e somos forçados à redução ao imediato.

Não há tempo para estudo ou rascunho: como numa pintura alla prima, vamos direto com a tinta à tela. Mas não se trata de uma pintura. O resultado desse exame é tão rapidamente substituído quanto sua análise. Trabalha-se pelo hiper-estímulo, pela alternância rápida, pela liquidez das formas. Ali, quando as imagens passam a progredir em alta velocidade, vemos um tanto de movimento criado a partir delas. Não dança, mas seus princípios, sob a trilha sonora até assustadora, tensa.

O todo nos transporta de volta para a análise dos próprios procedimentos. Não tanto de seus resultados, mas das formas como eles são criados e obtidos. Isso se reafirma com o terceiro momento da obra, em que o performer se recompõe enquanto assistimos a uma projeção de um vídeo do mesmo procedimento. Obra dentro da obra. Tal qual a imagem dentro da imagem. Tal qual a interpretação dentro da interpretação. E do Brasil dentro da Brasilidade e sua percepção.