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Coluna de
31 de dezembro, 2020

O ano que não aconteceu

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O ano acabando, e a gente olha pra trás: no meio de tudo que não aconteceu, a dança continuou

Quando tudo parou em março, eu estava pronto pra aceitar que a gente olharia pra trás e veria 2020 como o ano que não aconteceu. Um instante de silêncio e luto antecipado, por tudo aquilo que não subiria pro palco, toda a arte que não chegaria à cena, tudo que a gente não poderia assistir.

Realmente, o 2020 que era esperado não aconteceu. O que veio no lugar dele foi uma coisa completamente diferente. Fruto da insistência e da necessidade de continuar, que apareceu em tantos campos da vida, e não menos na dança.

Fazer dança, mas também ver dança, pensar dança e falar de dança mudaram. Diversas pre-concepções foram desafiadas. Uma lista imensa de coisas que “não dá pra fazer de outro jeito” agora são feitas: a necessidade é a mãe das invenções (e da aceitação).

Sem poder sair de casa, me encontrei e escutei gente de vários outros lugares, de tantas outras experiências. O isolamento talvez aumente a receptividade. Mas, mais que isso, as dificuldades de microfonia nas plataformas têm forçado o aprendizado do silêncio. Lugares de fala e lugares de escuta nunca foram tão pronunciados.

Com a dança transmitida e a dança em video passamos a novas possibilidades. A cena digital escapa da capital, e se expande pelo país e pelo mundo. 2020 desafia a curadoria. A forma de produção e circulação empurram alguns aspectos da decisão de acesso. Eu revi obras que nenhum programador colocaria em cena hoje. Eu encontrei e reencontrei companhias de longe que há anos não chegam na minha cidade.

No domínio da hiper-oferta, arriscamos o labirinto de escolhas confusas. Mas são escolhas mais pessoalizadas. Pautadas por duzentas outras questões e limites, mas menos sujeitas ao que uma ou algumas pessoas decidiram que representa a diversidade da dança.

Eu pude ver os amadores, e a importância que a dança tem como prática, como convívio, como experiência sócio-pessoal. Mas eu amei ver os profissionais e o quanto a insistência deles nos mostra que essa gente faz porque gosta mesmo. Dança porque precisa dançar, porque precisa compartilhar o mundo através de dança.

Deles, eu pego a sugestão: vire o ano dançando. Sozinho em casa, com aquela pessoa que tem estado por perto, ou o seu grupinho de enfrentamento pandêmico. Mas não deixa o ano terminar esmorecido, amuado, caído. Comemora a força que a gente tem que ter pra seguir em frente, e dança. Dança, que 2021 precisa de mudança, atrevimento, persistência, luta, e tudo isso carece de muito movimento.

Que esse virada seja gostosa, e 2021 venha cheio de dança e bons ventos. Obrigado pela companhia e pela leitura esse ano todo.

2020, Apresentação, Arte pandêmica, continuidade, História, Isolamento, Retrospectiva
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