Críticas

Sergipe Chove Dança

Num projeto exemplar, a criação de uma Companhia Jovem de Dança dentro da UFS mostra um pensamento e uma importância para as artes como há décadas não se via na universidade brasileira.

Tem algo de especial em ver uma companhia de dança nascer. Algumas poucas vezes eu pude acompanhar esse momento. Mas esse mês, em Aracaju, eu me encontrei com uma versão tão rara desse fenômeno que não achava que seria possível: ver uma companhia de dança nascer dentro de uma universidade pública. Esse é o projeto do diretor Marcelo Moacyr com a Companhia Jovem de Dança da Universidade Federal de Sergipe (UFS), que estreiou em 15 de julho no Teatro Tobias Barreto, num programa de três coreografias e plateia cheia.

Num momento em que, nacionalmente, a universidade no geral, e a universidade de artes especialmente, reclama de descaso, a UFS encontra uma oportunidade como não se via há décadas no Brasil, provavelmente desde Edgar Santos na UFBA. Santos foi o responsável pela unificação das faculdades de Medicina, Direito, Politécnica e Belas Artes, levando à criação da Universidade da Bahia, que, no seu quarto mandato como reitor, veria em 1956 a criação do primeiro curso superior de dança do Brasil, que também teve, desde os anos 1950, um notável grupo de dança.

Agora, Sergipe encontra apoio na visão de André Maurício Conceição de Souza, atual reitor da UFS, que, com o apoio de Marcelo Moacyr, compartilha um projeto único de atenção para as artes no meio universitário. Não apenas a criação da companhia de dança, mas projetos para uma companhia de teatro, a construção de um centro de artes e de um teatro para a universidade, e uma dedicação atenta à população do estado, com expectativa de ampla circulação dessa produção artística.

A companhia de dança surge como um projeto de extensão, mantida pelo trabalho de alunos bolsistas, que dedicam quatro horas diárias de trabalho às atividades da companhia. O efeito do trabalho contínuo e intenso é perceptível já na estreia do grupo: raras vezes vemos tamanha confiança e disponibilidade cênica de bailarinos jovens, que sobem ao palco pela primeira vez, mas como se ali já lhes fosse um terreno habitual e conhecido.

Surpreende também, dentro do pensamento da UFS, o surgimento dessa companhia jovem ligada a um curso que, por enquanto, é apenas de licenciatura. Criada em 2014, dentro do REUNI, essa é uma das trinta e poucas graduações em dança no Brasil. Boa parte desses cursos, sobretudo os ligados ao REUNI, foram criados para a licenciatura, para a capacitação do profissional formador em dança, atenção que, na UFS, também se desdobra em outros projetos ligados à extensão.

No momento em que a Companhia surge, no entanto, a Universidade prepara o projeto pedagógico para a criação de seu Bacharelado. Por todos os lados vemos a discussão da possibilidade de encerramento das atividades de cursos de artes nas universidades, a precarização das condições de trabalho e de estudo, a falta de professores, a falta de interesse e a falta de dedicação ao campo. E a Universidade Federal de Sergipe nos presenteia com o calor de novas possibilidades e novos interesses para as artes no ambiente universitário.

Esse calor é chave também do programa coreográfico apresentado para essa estreia nacional, que se encerra com a obra que dá seu título, Summertime, do diretor Marcelo Moacyr, numa remontagem de um trabalho que criou em 1991, a partir da observação dos tipos que encontrava nas praias da Bahia. Ainda atual e cativante, a obra sobrepõe indivíduos e pequenos grupos na mesma praia, mostrando, através de esquetes cômicas e esquetes coreográficas, suas várias interações, do banho de sol ao esporte, da briga com uma cadeira à comilança, da paquera ao atrapalhar o espaço do outro.

Para o público, sem dúvida, o auge da obra é a chuva, que invade o dia de verão, molha o palco e os bailarinos, e cria um espaço puramente lúdico e de diversão, celebrativo, e com um tom leve e feliz que combina perfeitamente com a ocasião da estreia da companhia, além de valorizar as características de atuação e interpretação dos bailarinos.

Antes de Summertime, na segunda parte do programa, Carta para Chico, coreografada por Joubert Azevedo, bailarino e assistente da companhia, também já nos preparava para esse ambiente lúdico. A trilha sonora com canções de Chico Buarque cria uma ligação rápida com o público, mas é a exploração do espaço e, sobretudo, de um banco em cena, aproveitado para todo tipo de articulação de movimento, que coloca em Carta um momento visual para ser lembrado. São especialmente bons os trabalhos em duos do coreógrafo, que encontra apoios e associações entre os bailarinos para ilustrar alguns dos muitos sentimentos que atravessam as canções dançadas.

Coreograficamente, no entanto, o ponto alto da noite é sua obra de abertura, Papavento, de Marcelo Moacyr. Se Summertime nos mostra um tanto da sua disposição para o trabalho com o cômico e o cênico, Papavento recupera visualmente o gosto cenográfico, mas constrói uma joia coreográfica de encher os olhos. Constantemente reclamamos da falta de habilidade de coreógrafos em construir conjuntos de dança, e é justamente esse o maior louro dessa obra, repleta de conjuntos brilhantes. Em meio a um cenário de seca, os corpos dos bailarinos respondem com pressa e agilidade na construção de possibilidades de continuidade. É preciso ser ágil e articulado para escapar da ameaça um tanto fantasmagórica que circunda a cena e te demanda força, resistência e coletividade — que se constrói na coreografia com a riqueza da variedade das formações e interesse dos conjuntos de Marcelo Moacyr.

Variado e objetivo, o programa de estreia da Companhia Jovem de Dança da UFS cativa o público por diversas razões. Pra alguns, será o interesse artístico das propostas, sua visualidade impactante. Outros vão elogiar o trabalho do elenco e a qualidade de sua realização. Mas é o surgimento dessa companhia que marca, realmente, o maior impacto, porque ele não é restrito aos que acompanharam o momento, mas se espalhará indiretamente pelos quatro cantos do Brasil, como uma esperança para as artes na universidade: é possível pensar novos projetos; é possível recolocar as artes como um papel de comunidade que afeta não só artistas, mas toda a comunidade universitária, e a comunidade externa à universidade; é possível dar destaque às artes dentro da universidade. E com essa companhia, Sergipe marca seu papel à frente desse pensamento que, esperamos com muito desejo, respingue para outros tantos espaços.

Papavento” (2025)

Coreografia: Marcelo Moacyr

Assistente de Coreografia: Joubert Azevedo

Música: Sinfonia N°25 in G menor, K 183: I. Allegro con brio e Réquiem in D Minor, K.626: I. Introitus – Wolfgang Amadeus Mozart

Elenco: Carol Galvão, Eloy Bastos, Flavia Santana, Francielly Barreto, Giovanna Santos, Julliane Figueiredo, Joubert Azevedo, Mandré Araújo, Marlisson Jesus, Pérola Juliana e Vitoria Santos.

Bailarino Convidado: Junior Pain

Figurino: Edna Nascimento e Marcelo Moacyr

Costureira: Sarah Castro

Cenografia: Marcelo Moacyr e Seu Mika

Carta para Chico” (2026)

Coreografia: Joubert Azevedo

Música: Chico Buarque de Holanda

Elenco: Carol Galvão, Eloy Bastos, Flavia Santana, Francielly Barreto, Giovanna Santos, Julliane Figueiredo, Mandré Araújo, Marlisson Jesus, Pérola Juliana e Vitoria Santos.

Figurino: Joubert Azevedo e Marcelo Moacyr

Costureira: Luana Pereira

Summertime” (1991)

Coreografia: Marcelo Moacyr

Reconstrução: Ana Elisa Supra e Leila Gomes

Elenco: Carol Galvão, Eloy Bastos, Flavia Santana, Francielly Barreto, Mandré Araújo, Marlisson Jesus, Pérola Juliana

Música: Janis Joplin (Summertime, down on me, Bye, Bye Baby, More Over, Get it While You Can).

Figurino: Marcelo Moacyr

Costureira: Sarah Castro

Cenografia: Marcelo Moacyr e Seu Mika

 

Fotos: Adilson Andrade e Joel Luíz