Críticas

Três Giselles

O grande conto de amor e desilusão do balé clássico é desdobrado em versão contemporânea de Luiz Fernando Bongiovanni para o Balé Teatro Guaíra, com sua personagem principal dançada simultaneamente por três bailarinas em cena, “porque o amor, às vezes, é múltiplo dentro da mesma pessoa”.

Com o nobre Albrecht já no chão, dividido entre o riso de seu encantamento inesperado, e o choro de sua mentira, Giselle se aproxima com um balão na mão, que ela estende e oferece a ele como se dissesse “toma, é o meu coração”. Pouco depois, o balão vai estourar, como um coração partido, selando o conto trágico de amor dessa história recontada desde 1841, e que ganha uma nova versão, por Luiz Fernando Bongiovanni, para o Balé Teatro Guaíra, bastante fiel ao enredo original, mas numa interpretação atualizada e relevante, cheia de sensibilidades contemporâneas.

O grande desafio das adaptações dos balés do repertório clássico é a manutenção do senso de urgência e de tragédia que os tornaram ícones, transpostos para um tempo e um modo de vida que há muito já não são mais mesmos. Entre quem reconhece o impacto que o balé ainda manifesta no mundo, e o quase fascínio sobre séculos de gerações de bailarinos e públicos de dança, pensar essas formas de atualização é uma obrigação: porque essas histórias ainda têm muito a dizer, mas precisam falar com o público de agora.

É difícil não carregar a expectativa e lembrança do evento que foi a primeira versão dessa criação de Bongiovanni, para o Balé da Cidade de São Paulo, há 16 anos, apresentada no Auditório do Ibirapuera, e usando dos seus efeitos de teatro vivo, com a abertura do fundo do palco e uma cena final que se desdobrava também pela grama do parque. Nesse novo contexto, GiselleS ganha força e reforços, integrando agora o repertório do BTG, que ajudou a popularizar esse projeto de atualização de histórias reconhecidas, que se fez uma das marcas do trabalho do coreógrafo.

O grande efeito da leitura de Bongiovanni pra esse clássico é a quebra da personagem principal, executada simultaneamente por três bailarinas, ao longo de todo o espetáculo. A proposta é atrevida, mas plenamente sustentada na versão do Guaíra, que ganha com peso de interpretação e realização cênica. O coreógrafo repete a parceria com Edson Bueno, responsável pela dramaturgia e direção teatral, mas encontra uma geração de bailarinos e um espaço e formato de trabalho que levam a um bom resultado, especialmente no campo da interpretação do elenco do Guaíra.

Para apreciar toda a sutileza da interpretação é preciso estar perto dos bailarinos, mas isso é verdade em todos os teatros de grande porte do mundo. E GiselleS faz um bom uso do porte notável do Teatro Guaíra. Na impossibilidade de usar o espaço externo, algumas cenas fogem para a plateia, com uma gostosa costura de Bathilde se distraindo e depois encontrando Albrecht, seu noivo, já encantado por Giselle. Mas a melhor das passagens usando a estrutura do teatro talvez seja a chegada das Willis (os espíritos vingativos das moças falecidas), que são sentidas através da pesada cortina do teatro, aterrorizando Hilarion, o camponês apaixonado por Giselle, mas rejeitado por ela, que depois é capturado e morto pelas Willis.

Hilarion é uma das grandes transformações em matéria de dramaturgia de personagem nessa versão do balé. Ele sempre foi um personagem com potencial, mas normalmente caricatural e irritante, com pouca sensação do público de sua perda. Aqui, ele ganha um peso essencial. Ainda que não seja forçado na história, nem apareça mais do que o previsto, ele ganha concretude, se realiza enquanto sujeito, integra o enredo, e também emociona, sobretudo na interpretação de Daniel Ribeiro.

Outro deslocamento surpreendente nessa versão é o do peso do primeiro ato em geral. A proposta original, que lembra uma estrutura de pastoral cômica, constantemente causa uma impressão de que Giselle na verdade só é mesmo um balé no segundo ato. Mas não nessa versão. Com a nova costura, o primeiro ato passa a um verdadeiro papel de proeminência, e poderia ser apresentado como obra completa — coisa que nunca vi em nenhuma outra versão de Giselle, mesmo as contemporâneas, nem imaginei possível: apreciar Giselle sem as Willis.

Essa talvez seja a maior força dramatúrgica dessa versão. A Giselle tripartida é uma decisão arbitrária, mas bem costurada com um ângulo de que “há amores tão intensos e contraditórios que precisam de mais de um coração pulsando diante dos olhos”. Traz uma carga de subjetividade contemporânea, e transforma um tanto das percepções que podemos ter dessa cena. Mas é a costura do todo, a completude do primeiro ato, e a transformação do segundo em um ritual de vingança que marcam o resultado dessa versão, junto de impactante proposta visual para a cenografia, e um trabalho primoroso com a orquestra, que valoriza tremendamente a dança, e a experiência do público como um todo, frente a uma obra musicalmente deliciosa, mas que não deixa de ser um desafio para os músicos, porque não é uma figura constante de repertórios sinfônicos.

Talvez o aspecto ainda não resolvido desse balé sejam os figurinos — especialmente na escolha das cores, e, sobretudo, na decisão de transformar o segundo ato, grande matriz de ato branco do balé romântico, em um ato com cores, e deixar a joia que é Myrtha (rainha das Willis) mais para uma carnal e sedutora bailarina de dança de salão do que para a criatura magica, sacerdotiza da dança espectral de vingança das moças mortas. O problema é a quebra da uniformidade e, portanto, da tensão visual desse ato, que também é fragilizada pela transformação de Moyna e Zulme (as Willis principais) em três  Volições, interpretadas por homens. O desdobramento em três é interessante pelo paralelo com as Giselles, e a troca de gêneros pode se justificar em uma leitura moderna, mas são os infelizes coletes e fitas roxas, como as de Myrtha, que descolam tristemente as personagens do conjunto.

O que atravessa todas essas questões e amarra a experiência com esse balé é a coreografia. Ela encontra o encaixe entre as referências ao clássico, a diversas formas do contemporâneo, e a algumas outras experimentações de movimentação que fazem parte do repertório do coreógrafo. O desenho dos conjuntos é preciso, e cria um corpo coletivo que traduz um tanto das atmosferas da obra. Mas são as propostas para as personagens mais marcantes que criam imagens de impacto, pra deixar na memória do público e do elenco — este, o segundo ponto muito forte de conexão do todo. Habituados e afeitos ao diretor, e em alto nível técnico, é a realização dos bailarinos dessa nova versão que eleva o GiselleS para o patamar que ele sempre quis ocupar, em dança, mas também em interpretação, sob a competente direção teatral de Edson Bueno. 

Sentida no público desde o início do espetáculo, e comentada no intervalo e ao fim das apresentações, a interpretação é a responsável pela transmissão da sensibilidade dessa história, garantindo um sentido atual para a proposta, que cativa e contagia. Também é especialmente contagiante perceber essa recepção do público num teatro desse porte, para esse tipo de proposta que atualiza e redesenha uma história do repertório, alçando-a ao mesmo patamar de sucessos internacionais de coreógrafos como Angelin Preljocaj e Akram Khan, e que não tem outros paralelos nacionais.

Encontrar GiselleS plenamente realizado no Guaíra tem um gosto especial. Ela testemunha a necessidade e o efeito do trabalho continuado — no caso, de Bongiovanni como diretor do grupo nos últimos 5 anos, período em que o BTG se redefiniu e se restabeleceu como referência na dança Brasileira. Ao mesmo tempo, marca uma despedida, porque Bongiovanni está voltando para o Balé da Cidade, como Diretor Artístico. O legado que ele deixa no Guaíra dialoga com seu GiselleS: tem um tanto de inesperado, um tanto de reinvenção, um tanto de continuidade, e uma imensa satisfação pelo efeito feliz de trabalho bem feito. O repertório, a experiência, e o elenco que ficam no BTG, junto de sua competente equipe, são motivos mais que suficientes para continuarmos atentos e interessados pela dança de Curitiba, que vive seu “instante mágico e irreversível”, como o de GiselleS.