Críticas

Um contemporâneo sensível

Em casa, a temporada do Guaíra com orquestra mostra caminhos fundamentais pra uma linhagem da dança contemporânea, reafirmando o papel do grupo como protagonista nacional dessa cena.

Eu finalmente fui a Curitiba pra assistir a uma apresentação do Guaíra em casa. Em poucas palavras: é um roteiro artístico imperdível. A companhia paranaense tem vivido um momento especialmente positivo em sua longa carreira, e o programa em temporada, “Tempo de Movimento”, com participação da Orquestra Sinfônica do Paraná coroa essa fase com três obras de tiro certeiro.

“Unwaltz – Isso não é uma valsa” do francês Mathieu Guilhaumon, atualmente diretor do BANCH, Ballet Nacional Chileno, não perde o tempo da música que o inspira, nem o seu contínuo fluxo circular, magnificado por uma cenografia impactante (Beto Rolnik) de anéis metálicos que determinam um recorte e uma possibilidade para o espaço da cena.

É nesse espaço que o coreógrafo vai “desvalsificando” a estrutura de movimentação de uma valsa tradicional, apresentada inicialmente em toda a glória de um grande baile, e que é progressivamente contemporaneizada: em cena, em coreografia, e também nos figurinos de Janiana Castro, que se transformam em cena.

A lógica do baile encontra forças de mutação, que se expressam em figuras que surgem literalmente atravessando o contexto inicial dos casais do baile, e abrem o espaço para a sugestão de outras possibilidades, outras articulações, outras realidades, talvez até outros mundos: essa figura espacial, estelar, ganha força nos anéis do cenário e sua movimentação celeste.

A construção coreográfica se apropria dessa sugestão de mutação, e o que vemos na dança mostra, com sucesso, um processo de imensa transformação, mas que ainda reconhece sua origem. A valsa se transforma, mas, contrário ao subtítulo, não deixa exatamente de ser valsa. Ela se transforma, mas sem precisar rejeitar, deturpar, ou desprezar sua fonte. Em tempos em que ainda há tanta dança contemporânea que tem gosto por destratar suas origens e referências, é especialmente feliz ver a plena encenação da transformação e da continuidade sem o ranço da rejeição.

Num teatro desse porte, com 2mil lugares lotados, o público está bem servido. Há material para refletir, para provocar, para fazer questionar os rumos da dança, há elenco de qualidade e um projeto artístico sólido, e há também deleite — ingrediente fundamental para qualquer proposta de companhia estável que busque representatividade e abrangência.

A força do trabalho é que ele não é “tudo menos uma valsa”, mas “tudo o mais que uma valsa pode ser”: investigativo e exploratório, mas também sensível e tocante. O conjunto emociona: é o porte da companhia, do teatro, do elenco, da orquestra, trabalhados de uma forma que raramente temos o privilégio de assistir, e que colabora para destacar o Balé Teatro Guaíra como uma das principais companhias nacionais — e talvez a mais relevante no cenário atual de grupos estáveis, para aqueles que se importam com esse tipo de dança contemporânea.

O sucesso da empreitada tem a ver com a direção do BTG, a cargo de Luiz Fernando Bongiovanni, que comanda o grupo desde o final de 2021. O meio desse programa triplo é uma obra do diretor, curta e extremamente sensível, que mostra alguns caminhos da sua assinatura coreográfica. “Sospiri ou Sobre a Finitude” explora um tema de fim, de rompimento, de encerramento, um suspiro entre a coisa que se encerra e a que vem na sequência.

São quatro minutos densos, embalados por um som inicial de mar que traz para a cena os bailarinos, quase como se fossem carregados para a costa, e depois ressoando corporalmente a expectativa e a angústia do momento da composição de Edward Elgar. Num duo de absoluto trabalho técnico, que parece ao mesmo tempo uma carta de amor à bailarina Fernanda Verardo, e uma carta de amor dela à dança, o que se constrói é um instante de suspensão absolutamente encantador.

Os olhos se agitam observando esses dois bailarinos e as dinâmicas de seus corpos, que constróem todo tipo de apoio e afastamento, em constante angústia, e expectativa de tirar o fôlego. Poético, simples e eficiente, o trabalho tem aquele mérito raro de promover um encontro precioso entre o momento do coreógrafo e o momento dos bailarinos. Ainda que Bongiovanni seja da casa, e já tenha trabalhado mesmo anteriormente com Verardo, o que acontece em “Sospiri” tem o raro efeito de revelação: você reconhece o autor da criação e, ao mesmo tempo, o trabalho não parece nada anterior dele.

Isso é absolutamente emocionante, porque usa a potência da metáfora cênica colocada no palco pra falar, também, de outras lógicas de aproximação e colaboração, como, por exemplo, de um diretor com sua companhia, que, agora, indo para seu quinto ano na função já tem uma compreensão ampla de onde se insere e como opera, da potência de seu território, e das formas de extrair o melhor desse conjunto.

Esse é um processo que se dá, como o presente programa muito bem ilustra, entre dinâmicas de continuidade e de inovação, paralelo que aparece também na obra final do programa, “Stol – uma questão de confiança”, de Alessandro Sousa Pereira, mais uma vez criando para o Guaíra.

Provocativa, “Stol” traz os bailarinos surgindo quase como um exército de insetos sambistas. Sim, existe um questionamento quase direto, mas a cena coberta de grama, com cadeiras, pela qual surgem figuras com máscaras de flores mistura esse aspecto animal com uma constante ironia desencaixada de contexto, expressa por pessoas que atravessam a cena sambando, enquanto outras parecem se comportar como um exército de brinquedo.

Existe violência, e também obsessão, retratada pela proposta e pelo processo coreográfico de Pereira, que encaixa no caráter cumulativo e repetitivo do Bolero de Ravel que embala a obra. Mas tem, sobretudo, um tom de desajuste que reflete profundamente um contexto atual de incerteza, de crise climática, crise política, disputa, guerra, medo e insegurança, que levam diretamente à proposta do título, que carrega a palavra dinamarquesa que significa “confiança”, mas também significa cadeira, abrindo espaço pra visualidade que completa a cena.

Muito bem usadas, as cadeiras desenham o espaço e sua ocupação, mas também se transformam. Em carapaça, em capacete, em escudo, em casco. E contribuem para o tom provocante de complexificação das imagens de cena. Não é uma leitura fácil. Não é uma história direta, um enredo compartilhado. São diversos ângulos de um prisma da realidade atual, e refletem a sua absoluta complexidade e aparente caos. Ao fixar um detalhe por vez, tudo está lá. Todo o embaraço e o nó do momento do mundo, traduzido em cena, e em dança.

Não há dúvidas de que seja um trabalho (pelo menos em algum ângulo) sobre guerra. Mas a guerra não é mostrada como o conflito, a batalha, ainda que seja possível ver soldados ali. Ela é mostrada pela visão de alguém comum. Um de nós. Qualquer pessoa. Frente ao mundo de hoje. Onde acaba a guerra, onde começa a festa, e como o carnaval continua no meio disso tudo. Onde estão as disputas, onde estão as decisões e os poderes políticos, e como a gente continua sambando através delas.

De certa forma, é uma imagem que remete à “Mesa Verde” de Kurt Jooss, com seus homens decidindo o futuro do mundo como se ele fosse apenas um jogo de cartas. Mas o mundo já não é o mesmo. A sociedade já é muito mais complexa. O significado do “mundial” que nomeou as duas grandes guerras já não faz sentido pós-globalização. O acúmulo dos contextos leva a outros absurdos e distorções. É por isso que é difícil não ler a cena tanto como os soldados marchando sobre o campo de batalha, quanto como formigas invadindo um piquenique no Jardim Botânico.

Provocador, como um todo o programa tem um foco fundamentalmente relevante sobre o contemporâneo, a contemporaneidade, e o lugar da dança contemporânea nisso tudo. Ele declara seu partido e seu ponto de vista desde seu título: é “tempo de movimento”, e o Balé Teatro Guaíra demonstra a sua rica capacidade de refletir sobre o mundo e a dança de hoje através do movimento, se colocando como uma companhia protagonista da nossa dança — e pedindo para ser revista, cada vez mais, e em mais palcos.